Astrodestino – Erro e criatividade

Postado em 20 de fevereiro de 2011 por Andreia Modesto



Criatividade e erro são sinônimos. Quem fica esperando estar completamente “pronto” para começar a atuar, perde o trem e não se desenvolve. O erro faz parte, permite o insight, o jogo de cintura, a solução improvisada que salva a situação, o bom humor, ensaio-erro-ensaio e mais uma vez.

O medo de errar paralisa em qualquer área da vida. Se você não está pronto para se molhar na chuva, não vai conseguir aproveitar o melhor da vida. “A coisa certa” pode ser o próprio erro, para quebrar com a vaidade, escorregar na lama, comer do prato que não ia comer, beber da água que não ia beber.

Numa das palestras de Ken Robinson no youtube, o educador inglês conta uma boa história sobre criatividade:

Durante uma aula de desenho, a garotinha mergulha no papel escondida no canto da sala. Faz rabiscos concentrada e a professora se aproxima e pergunta:

– O que é que você está desenhando com tanta atenção?
– Estou fazendo o desenho de Deus, responde a menina.
– Mas ninguém sabe como é o rosto de Deus!
– Vão saber em um minuto!

Recebo pessoas que estudaram muito, se aperfeiçoaram em várias artes e aprenderam muitos idiomas. Pelo medo, fizeram concurso público ou se renderam a segurança de um trabalho bem pago no final do mês que não corresponde aos seus dons e sensibilidade.

O mundo ensina que a vida é uma teoria e quanto mais diplomas e títulos, melhor você se torna em alguma coisa na qual não acredita nem um pouco.

Quando abracei a Astrologia de vez, em 1988, era muito raro receber pessoas ansiosas, dopadas de remédios, doentes ou depressivas. Hoje é o contrário: não termino o dia sem uma história de depressão, pânico ou doença grave, seja meu próprio cliente, seu pai, irmão ou outro parente.

Os prozacs e tantas outras pílulas, ou ainda os florais e tantas técnicas de meditação e até levitação não adiantam muita coisa se não existir uma aceitação de si mesmo. Você não compra o sentido de sua vida na prateleira. O destino não se oferece numa boa “promoção”, você não concorre à felicidade preenchendo o cupom do super-mercado-esotérico.

As pessoas me pedem “alívio”, algum tipo de anestesia, um torpor para lidar com o que elas chamam de vida. Acho que a solução seria apenas se conhecer e se reconhecer, se aceitar e ir se melhorando naquilo que dá para melhorar mas sem parâmetros olímpicos, sem competir com o vizinho, sem precisar quebrar recordes o tempo todo.

Consegui alguns trechos sobre essa questão no livro “Muito Além do Divã Ocidental”, organizado e editado por Carolyn Rose Gimian, Ed. Cultrix – Chogyam Trunpga Rinpoche

“A psicologia budista se baseia na idéia de que os seres humanos são fundamentalmente bons. Suas qualidades mais essenciais são positivas: abertura, inteligência e cordialidade…essa idéia tem sua origem, em última análise, na experiência – a experiência da bondade e da dignidade em si mesmo e nos outros…

Como vim de uma tradição que dá ênfase à bondade humana, foi uma espécie de choque para mim quando descobri a tradição ocidental do pecado original…

…parece que a noção de pecado original não apenas permeia as idéias religiosas ocidentais como, na verdade, parece estar presente em todo o pensamento ocidental, especialmente no psicológico. Parece existir, tanto entre os pacientes quanto entre os teóricos e terapeutas, uma grande preocupação com a idéia de algum erro original que seja causa do sofrimento posterior – uma espécie de punição por esse erro.

Descobre-se que há uma noção de culpa ou chaga que é predominante. Acreditem realmente ou não na idéia de pecado original – ou mesmo em Deus – , as pessoas parecem verdadeiramente acreditar que fizeram algo de errado no passado e agora estão sendo punidas por isso.

Parece que esse sentimento de culpa fundamental vem sendo transmitido de uma geração para a outra e permeia vários aspectos da vida ocidental. Os professores, por exemplo, freqüentemente pensam que, se as crianças não se sentirem culpadas, não vão estudar com propriedade e por isso não vão se desenvolver como deveriam…

O professor procura pelos erros: “Veja, você cometeu um erro. O que você vai fazer quanto a isso?”

Do ponto de vista da criança, aprender se torna algo baseado em não cometer erros, em tentar provar que, na verdade, você não é mau.

É inteiramente diferente quando você aborda a criança de modo mais positivo: “Veja o quanto você já melhorou: agora podemos ir ainda além”. Nesse último caso, o aprendizado se torna uma expressão de nossa sanidade e de nossa inteligência nata.

O problema com essa noção de pecado ou erro original é que ela funciona praticamente como um obstáculo para as pessoas. É claro que em algum momento é necessário percebermos nossas deficiências. Mas, quando vamos longe demais, isso elimina qualquer inspiração e destrói também nossa visão. Desse modo, aquela noção não é muito útil, e na verdade, parece desnecessária.

Como já mencionei, no budismo não há idéias comparáveis às noções de pecado e culpa. É claro que existe a idéia de que se deve evitar erros. Mas não há nada que seja comparável ao peso e à inexorabilidade do pecado original.

De acordo com a perspectiva budista, os problemas existem, mas são impurezas temporárias e superficiais que encobrem nossa bondade fundamental…”

O Sol entrou em Peixes na sexta-feira, dia 18. Lua Cheia em Libra nesse domingo, energia apropriada para a vida social, a beleza, o contato com as artes.

Alguém pediu que falasse sobre a entrada de Netuno em Peixes. Linkando com o tema inicial da postagem, Netuno, um dos planetas mais associados à busca espiritual, muitas vezes gera tanta confusão e superstições que mais valeria viver o dia plenamente, sem pensar muito.

Muitos “netunianos” que mergulham fundo na busca de um sentido superior para suas vidas, mais se atrapalham, se deixando iludir por promessas falsas de gurus ainda mais falsos ou se entorpecem com práticas que não trazem nenhuma transformação profunda. Porque encarar a si mesmo dói um bocado e preferem flutuar do que pisar com os dois pés no cimento e aceitar a encarnação e todos os desafios.

Karma é desenvolvimento. Vida é movimento, ação, escolhas. A disposição positiva de viver elimina os problemas porque eles se tornam menores. Não existe passe de mágica mas o reconhecimento de que tais questões podem ser realmente passageiras, fazem parte da vida, estão ali para serem resolvidas e que existe sempre uma solução que traz de volta o equilíbrio que havia se quebrado.

É preciso ter o desejo de mudar os padrões, tentar algo diferente, procurar não se apegar aos hábitos ou pensamentos que fazem a vida encalhar e parecer um jogo difícil. A vida é um caminho e todo mundo sabe que para cada problema existe uma solução. A gente tropeça, levanta, muda o passo e continua.

* a ilustração da postagem é obra de Miró – a estrela azul

2 Comentários

  • Luci 20 de fevereiro de 2011 em 15:26

    Andréia, esse seu post de domingo é um verdadeiro presente. Obrigada!

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  • Sanmartin 26 de fevereiro de 2011 em 02:40

    Há uma lógica por trás do erro, erramos de acordo com um padrão,apenas. Deus aparece nos lugares "mais equivocados".

    Responder

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