Astrodestino – Peixes, imaginação e criatividade

Postado em 18 de março de 2011 por Andreia Modesto

D. não teve opção senão estudar Arquitetura e fazer parte do grande escritório de construção civil da família. Não havia espaço para colocar sua vocação para a Medicina, pois a regra familiar é estudar Engenharia, Arquitetura ou Administração, de modo que o escritório esteja sempre em expansão, sem necessidade de se procurar profissionais “lá fora”.

Casou-se com uma paisagista e tiveram dois filhos. Quando seu caçula, chamado J. estava com seis anos, começou a dar trabalho na escola, se mostrando desatento, barulhento e inquieto demais. Trocaram o garoto de escola mas ele continuou importunando, mostrando uma necessidade de ter sempre muito espaço e contato com a natureza, se recusando a entrar dentro da sala de aula, preferindo ficar nos jardins da escola.

Os professores aconselharam que D. e sua esposa procurassem médicos capazes de “sossegar” o espírito nervoso de J. Mas D. lembrou-se que quando era criança, adorava passar o dia na rua, no quintal, soltando pipa, brincando de pique, numa realidade que não faz parte da infância monitorada dos condomínios de luxo das grandes cidades.

D. e sua esposa decidiram dar uma grande virada. Ele encontrou forças para se desligar do escritório da família, vendendo sua parte depois de muitas brigas. Sua esposa também se desligou do escritório em que trabalhava e o casal investiu no trabalho independente, criando uma nova clientela com reformas, obras e paisagismo.

Venderam o apartamento de São Paulo e compraram uma casa enorme em uma cidade próxima, com quintal, cachorros, muitas árvores, onde montaram o escritório, vindo a São Paulo três vezes por semana.

A proposta é que J. encontre o espaço que ele precisa para se desenvolver. D. ainda não sabe se J. vai optar por ser um esportista, um biólogo ou se o seu dom maior será como veterinário, já que o garoto adora animais e se encarrega de cuidar de todos os cachorros, limpando, passeando com eles e alimentando com carinho. Mas D. sabe reconhecer que J. é só uma criança esperta e inquieta que precisa de mais liberdade e movimento do que outras.

Depois que mudaram de cidade, J. melhorou muito nos estudos mas fica claro que sua aptidão jamais será para uma carreira intelectual, pois ele precisa de muito movimento para poder pensar e se expressar com naturalidade. Faz vários esportes e continua transbordando de energia e alegria.

D. é nascido em 07 de março de 1966 e teve receio que seu filho tivesse que se enquadrar ao mundo da escola como ele próprio teve que se enquadrar ao mundo da família, onde não existia espaço para alguém que “funcionasse e desejasse” de modo diferente.

Todas as semanas recebo pessoas que não atenderam à vocação, porque foram convencidas da necessidade de encontrar um emprego convencional, baseado na sobrevivência, na segurança acima de qualquer coisa. Abandonaram talentos que as faziam vibrar para sentar atrás de uma mesa fazendo contas. Numa cidade como São Paulo, onde a maior parte das pessoas trabalha mais do que oito horas por dia, é inevitável que tais pessoas se deprimam, pois a vida perdeu o sentido maior.

Sir Ken Robinson, nascido em Liverpool, Inglaterra, em 04 de março de 1950, “é um líder internacionalmente conhecido na área de desenvolvimento da criatividade, inovação e recursos humanos”. Nascido sob o signo de Peixes, tem uma percepção mais profunda do que outros intelectuais da área. No seu livro “O Elemento-Chave”, da Ediouro, aborda várias histórias de pessoas bem sucedidas, em diferentes áreas, que não se deixaram seduzir por propostas ou sugestões de amigos, família ou propaganda.

Sabemos que algumas pessoas podem por vontade própria optar por uma carreira segura, tornando o trabalho o meio para alcançar a vocação num hobby ou trabalho voluntário. Isto jamais seria um erro. Mas a maior parte enfrenta resistência dos pais e amigos, que colocam claramente que “tal caminho não vai lhe dar dinheiro” ou, “deixe a fotografia como hobby e faça economia para atuar no mercado de capitais”.

No livro do pisciano Ken Robinson, ele distingue imaginação de criatividade:

“Imaginação não é o mesmo que criatividade. A criatividade leva a mecânica da imaginação a outro níveis. Defino criatividade como “o processo de ter idéias originais que possuem valor”. A imaginação pode ser totalmente interna, podemos ficar o dia inteiro imaginando coisas que ninguém note. Todavia, ninguém jamais dirá que alguém foi criativo se essa pessoa nunca fez nada.

Para ser considerado criativo, é preciso fazer alguma coisa concreta, porque ser criativo implica colocar a imaginação em funcionamento para criar algo novo, para encontrar soluções para os problemas e, inclusive, incitar problemas ou perguntas diferentes.

A criatividade pode ser encarada como uma espécie de imaginação aplicada.

Você pode ser criativo em qualquer campo – em tudo que envolva o uso da inteligência, seja na música, na dança, no teatro, na matemática, nas ciências, nos negócios, nos relacionamentos com outras pessoas. Isso ocorre porque a inteligência humana é tão maravilhosamente diversa que os indivíduos são criativos das maneiras mais extraordinárias.”

O livro de Ken Robinson me lembrou a obra-prima de James Hillman, O Código do Ser, da Ed. Objetiva. Reúne depoimentos, biografias, cita pessoas conhecidas, com bom-humor, realismo e sensibilidade, o que só um pisciano conseguiria fazer.

Recortei parte de um capítulo do livro para mostrar o que se pode encontrar nele. Reduzir o livro do educador inglês a uma boa dica é bobagem. É daqueles livros que viram você de pernas para o ar, iluminam, acendem, despertam! Curiosamente, a bailarina e coreógrafa citada no texto, é pisciana, nascida em 20 de fevereiro de 1926, em Kent, Inglaterra. Gillian Lynne, ilustra a postagem que se segue no blog.

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