Astrodestino – Peixes, imaginação e criatividade

Postado em 18 de março de 2011 por Andreia Modesto

Do livro de Ken Robinson, da Ediouro: “O Elemento-Chave”

Gillian tinha apenas oito anos, mas seu futuro já estava em risco. Seu rendimento escolar, de acordo com as professoras, era um desastre. Ela nunca entregava os trabalhos no prazo, tinha uma caligrafia horrível e tirava péssimas notas nas provas.

Como se não bastasse, ela perturbava toda a classe; num minuto, mexia-se inquieta na carteira, fazendo barulho, em outro, olhava pela janela, forçando a professora a parar a explicação para chamar sua atenção, e logo em seguida, encontrava uma maneira de distrair os colegas que sentavam à sua volta.

Gillian não se incomodava com as reprimendas, pois estava acostumada a ser corrigida por figuras de autoridade e, na verdade, não se considerava uma criança difícil. No entanto, a escola estava preocupadíssima com seu comportamento e acabou enviando uma carta aos pais da menina.

A direção acreditava que Gillian tinha algum problema de aprendizado e que talvez devesse ser matriculada numa escola para crianças com necessidades especiais. Isso tudo aconteceu na década de 1930.

Penso que hoje eles diriam que a menina sofria de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e recomendariam que fosse tratada com Ritalina ou qualquer outra droga similar.

Na época, contudo, a epidemia de TDAH ainda não havia sido inventada e por isso não estava disponível ao público. As pessoas não sabiam que uma criança poderia apresentar esse transtorno e tinham de se virar sem ele.

Os pais de Gillian receberam a carta com grande preocupação e não hesitaram em tomar as devidas providências. A mãe vestiu a menina com seu melhor vestido e a fez calçar seus melhores sapatos, prendeu seus cabelos em duas tranças e levou-a a um psicólogo para fazer uma avaliação, temendo o pior.

Gillian conta que se lembra de ter sido convidada a entrar numa sala forrada de painéis de madeira, com livros encadernados em couro nas estantes. Parado junto a uma grande escrivaninha estava um homem imponente, e pediu que se sentasse num enorme sofá de couro. Seus pés mal tocavam o chão e o ambiente a assustava. Nervosa com a impressão que passaria, sentou-se sobre as duas mãos para tentar esconder sua agitação.

O psicólogo voltou à escrivaninha e, nos vinte minutos seguintes, perguntou à mãe a respeito das dificuldades que a menina estava enfrentando na escola e dos problemas que, segundo a direção, estava causando.

Apesar de não dirigir uma pergunta sequer a Gillian, não tirava os olhos dela, observando-a atentamente, o que a fez se sentir ainda mais desconfortável e confusa.

Mesmo muito pequena, ela sabia que aquele homem desempenharia um papel marcante em sua vida. Já ouvira falar dessas “escolas especiais” e queria ficar longe delas. Na verdade, não sentia que tinha tantos problemas, mas todos pareciam acreditar no contrário. E, pelo jeito que sua mãe respondia às perguntas, era bem capaz de que ela também estivesse acreditando.

“Talvez eles estejam certos”, pensou.

Depois de algum tempo, a mãe e o psicólogo pararam de falar. Ele levantou-se da cadeira, foi até o sofá e sentou-se ao lado da garota.

– Gillian, você foi muito paciente e agradeço por isso. Mas preciso que seja um pouco mais paciente. Preciso conversar com sua mãe em particular e iremos para a sala ao lado por alguns minutos. Não se preocupe, não vamos demorar.

Gillian concordou, apreensiva, e os adultos a deixaram sozinha, ainda sentada no sofá. Mas, antes de sair, o psicólogo inclinou-se sobre a escrivaninha e ligou o rádio.

Assim que se viram no corredor, o psicólogo disse à mãe de Gillian:

– Vamos ficar aqui por alguns minutos para ver o que ela vai fazer.

Havia uma janela que dava para o consultório, e os dois foram em sua direção, ficando onde a menina não conseguisse vê-los. Quase imediatamente, Gillian levantou-se do sofá e começou a se movimentar pela sala, acompanhando a música.

Os dois adultos observaram em silêncio por alguns minutos, impressionados com seus gestos graciosos. Qualquer um notaria que havia algo de natural, até mesmo de primevo, em seus movimentos e na expressão de puro prazer que iluminava seu rosto.

Finalmente, o psicólogo virou-se para a mãe e disse:

– Preste atenção, sra. Lynne, Gillian não está doente. Ela é uma dançarina. Matricule-a numa escola de dança.

Perguntei a Gillian o que havia acontecido depois disso e ela falou que sua mãe seguira o conselho do médico.

– Nem posso explicar como foi maravilhoso. Entrei no salão e percebi que estava rodeada de gente como eu. Pessoas que não conseguiam ficar paradas. Pessoas que precisam se movimentar para pensar.

Ela começou a freqüentar a escola de dança uma vez por semana e ensaiar diariamente em casa. Algum tempo depois, fez o exame de admissão para a escola do Royal Ballet, em Londres, e foi aprovada.

Anos de estudo mais tarde, foi admitida no corpo de baile da Royal Ballet Company e terminou como solista, o que lhe deu oportunidade de viajar e se apresentar no mundo inteiro.

Quando essa parte de sua carreira chegou ao fim, Gillian montou sua própria companhia de teatro musical e produziu uma série de espetáculos de grande sucesso em Londres e Nova York. Conheceu Andrew Lloyd Weber e com ele criou alguns dos musicais mais bem-sucedidos da história, entre eles Cats e O Fantasma da Ópera.

A pequena Gillian, a menina que não tinha futuro, tornou-se Gillian Lynne, famosa em todo o mundo como uma das melhores coreógrafas contemporâneas, alguém que ganhou milhões de dólares e trouxe alegria a milhões de pessoas.

Tudo isso aconteceu porque alguém olhou no fundo de seus olhos, alguém que já vira muitas crianças com o mesmo comportamento e sabia como ler os sinais que transmitiam.

Outra pessoa poderia ter receitado medicamentos para acalma-la e recomendado que fosse matriculada numa escola para alunos especiais. Mas Gillian não tinha problemas e não precisava de nada daquilo.

Ela só precisava ser quem realmente era.”

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