De Saturno para Urano: Virei autônomo! – parte 2

Postado em 16 de agosto de 2014 por Andreia Modesto

O emprego está acabando. É uma fala comum nas pessoas que ainda se assustam com as mudanças do mundo em que vivemos. Pode ser que o emprego esteja realmente acabando, o que não significa que a produtividade esteja acabando. O pequeno agricultor não tem um “emprego”, assim como o artista plástico ou tantos outros profissionais que sobrevivem do que sabem fazer.

A maior parte das pessoas “empregadas”, não gosta do que faz ou não tem total identificação com a empresa em que trabalha. A perda da “carteira assinada” que garante alguns benefícios e do salário fixo assusta um bocado, pois a entrada de dinheiro será irregular, o que obriga a existir um controle, planejamento e organização maior.

A maior parte dos clientes que atendo, que são executivos de empresas internacionais, no Brasil ou no exterior, já trabalham home office pelo menos três dias na semana. E muitos autônomos, se não dependem de uma estrutura maior como dentistas e fotógrafos, também trabalham em casa ou perto de casa, pelo menos. Em São Paulo, pensar em perder quatro horas por dia, para ir e voltar do trabalho traz cansaço e acaba atrapalhando o rendimento das pessoas no trabalho.

Mesmo a empresa que oferece home office, está dizendo claramente ao seu executivo, que confia na autonomia dele. Trabalhando de casa, ele terá mais tempo, poderá trabalhar mais, ainda que usufruindo da ginástica, almoçando com os filhos e levando-os à escola. Não existe a necessidade de estar presente no ambiente de trabalho para mostrar que produz. A relação é de maturidade e confiança.

Ou seja, se Urano representa esse mundo “mais livre” e por isso mesmo, mais arriscado, é preciso que a organização de Saturno esteja presente. E não somente a organização do velho sábio, mas o controle sobre os gastos e as exigências sobre si mesmo. Afinal, o autônomo ou pequeno e médio empresário, são ao mesmo tempo o chefe, o empregado e o estagiário e assistente, até que o negócio cresça e ele possa contratar outras pessoas.

Franquias nem sempre são fonte de satisfação. Se por um lado, oferecem a coisa “já pronta”, obrigando o franqueado a se organizar e trabalhar de acordo com o método da franquia, por outro lado, ele vai continuar vestindo “a camisa do outro” e dando um bocado de dinheiro para “esse outro”. Meus clientes não tiveram boas experiências com franquias. A maior parte se queixou de não poder escolher muito. Nem mesmo o ponto pode ser escolhido, pois se limitam ao que a franquia pode oferecer. A grande maioria acabou usando a experiência da franquia, como uma alavanca para aprender a como trabalhar (e como não trabalhar) e depois montaram seus próprios negócios, com seus nomes, no mesmo segmento da franquia.

A autonomia obriga a um amadurecimento profissional. Não se tem mais nenhuma fantasia sobre algum tipo de segurança. Ser o próprio chefe é muito mais desafiador do que suportar um chefe que nos frita o dia inteiro. Ter vários clientes, de perfis diferentes é outro desafio que obriga a um jogo de cintura e grande diplomacia. É preciso saber “vender o próprio peixe”, acreditar em si mesmo e ser honesto no modo como se estabelece no mercado em que atua.

Muitos se desestabilizam, procuram cursos para gerenciar melhor os negócios, fazem mais contas, ficam com receio do novo papel. Ou seja, ganhar autonomia gera medo. Que pode ser superado aos poucos, quando a vida começa a se reorganizar e o retorno dos clientes deixa claro que já existe boa aceitação do serviço ou produto. É o mundo em que vivemos, Saturno e Urano de mãos dadas, responsabilidade e liberdade ao mesmo tempo.