Saturno e a crise dos 30 anos. Capricórnio e a maturidade. Escolha profissional.

Postado em 10 de janeiro de 2016 por Andreia Modesto

***beijo do Gordo, capricorniano de 16 de janeiro de 1938

Falar de Capricórnio é falar do tempo. Aquele que nos perpassa ao longo dos anos, que nos transforma, nos faz fracos ou mais fortes, aquele que dá limites e também sentido para nossas vidas, erros, enganos, acertos e frutos.

Aquele que foi cortado em fatias, milênios, séculos, anos, meses, semanas, dias e horas, tão longo tempo se esperamos por algo, tão curto tempo se somos felizes e plenos, aquele que não queremos repetir e maldizemos, aquele que gostaríamos que se apresentasse de novo e nos dá saudades.

Falar de Capricórnio é falar das diferentes idades e do que se estabeleceu que cada idade deveria representar para todos nós.
Em alguma postagem antiga, eu levanto a ideia de que “Saturno já não é mais o mesmo”, pois não é raro receber “adolescentes” de 40 anos que ainda não decidiram o que vão fazer quando “crescerem”.

Então, como fica o tal “retorno de Saturno”, tão temido pelas gerações anteriores, por ser um momento de definições e uma pressão maior sobre cada pessoa? Era associado ao momento de sair da casa dos pais, consolidar carreira e partir para o mundo se apropriando de sua história de vida com uma autonomia maior. Para aqueles que já tivessem saído do lar paterno em torno dos 24 anos (retorno de Júpiter), a virada dos 28-30 anos poderia representar casamento e projeção de filhos a curto prazo. Saturno é o iniciador da vida adulta, que não exige que o rapaz de 15 anos vença cobras na caverna ou saia para caçar um grande urso. Ele nos apresenta a vida adulta pelos limites e noção de civilização, tradição, continuidade, o espaço que ocupamos na sociedade em que vivemos, sem precisarmos da agressividade de Marte. Não vivemos numa tribo viking ou esquimó.

Será que Saturno ainda funciona dessa maneira? A consciência de cada idade depende muito do “tempo” em que vivemos. Charles Dickens era considerado um “homem feito” aos doze anos de idade quando saiu de casa para trabalhar numa fábrica de graxa e ajudar a família, já que os pais estavam presos por conta de dívidas.

A “idade de consentimento”, que marca a possibilidade de iniciação sexual e casamento, sem que o ato seja considerado crime, em muitos países já foi a idade dos doze anos, o que seria impensável nos dias atuais.

Voltando a Capricórnio e à famosa crise dos 30 anos, uma curiosidade é o filme “Trinta anos nessa noite”, um filme francês talvez da década de 60. Ter trinta anos era ter “tanta idade”, que o protagonista depois de um profundo processo de reflexão, resolvia se matar…nada muito animador, mas hoje em dia é quase impossível pensar que alguém consiga ter um profundo processo de reflexão aos 30 anos, pois para a grande maioria, a vida nem começou. Não vai dar para se arrepender de muita coisa.

Aqui, não existe um discurso de julgamento ou crítica, mas a necessidade de repensar o que Saturno passou a representar para essa geração que estende a adolescência por mais tempo e que se mantém ligada aos pais sem culpa ou vergonha.

Se anteriormente a crise dos trinta anos poderia representar uma avaliação mais complexa da vida e das decisões tomadas até então, hoje em dia, parece existir uma crise de “urgência”, a tentativa de recuperar o tempo perdido para poder se alinhar com o próprio destino, como se tivessem passeado por algum tempo e agora voltam ao trilho da vida.

Há pouco tempo uma cliente que é socióloga, falou das dificuldades econômicas de uma sociedade em que os casais reduzem o número de filhos, os idosos vivem mais tempo e parte da população que poderia ser produtiva, mantém-se à margem, emendando apenas os estudos ou “nem-nem”, nem estuda e nem trabalha.

O IBGE identifica que 1/5 dos jovens entre 15 e 29 anos, nem trabalha e nem estuda. Identifica também que muitos deles nem procuram trabalho, o que gera uma nova categoria: nem-nem-nem. E embora o IBGE coloque que a maior parte desses jovens faça parte de famílias de baixa renda, no meu consultório, os “nem-nem” nascem em boas famílias que permitem que experimentem várias universidades sem grande comprometimento e que se permitam anos sabáticos para se liberarem do estresse que é começar a viver…o sofá parece ser o local que escolhem para ficarem a espera do passarinho verde que lhes oferecerá um insight sobre o futuro de suas vidas. Algumas idas a academia e baladas interrompem a espera do passarinho.

Contraditoriamente, numa sociedade que cobra uma vida sexual ativa e quente desde cedo, essa juventude, por não ter potência em construir a própria história de vida, mostra uma certa apatia, poucas relações amorosas (muito curtas) e pouco interesse sexual, como se tivessem ficado infantilizados em todas as áreas da vida.

Saturno parece estar relacionado hoje com uma urgência, como se o peso do planeta associado aos “velhos” começasse a soar como o despertar uraniano – necessidade de ACORDAR para a própria vida, acordar para si mesmo, descobrir que ser adulto, pular da cama cedo para tocar a vida, pagar suas contas e alugar o seu espaço no mundo, pode ser muito mais do que um sacrifício. Pode ser uma experiência que traz um significado a tudo, esquenta o coração, desperta o corpo, integra à vida e faz frutificar e ajudar, não somente aos outros pelo seu trabalho, mas, sobretudo, a si mesmo.

Não existe nada de errado em demorar a definir carreira. O que leva à perplexidade é que a situação, embora desconfortável para os pais e avós, parece não incomodar os jovens.

Um recado importante de Saturno, é que a escolha da carreira precisa ser feita na experiência prática, destituída de qualquer sonho ou imaginação. “Imaginar-se” um grande Promotor de Justiça significa estudar MUITO e precisar ter alguns anos de ralação em algum escritório para poder prestar o concurso. Visualizar-se como um arquiteto renomado significa ralar MUITO no escritório daqueles que já “chegaram lá” para ir definindo o seu próprio estilo e descobrindo sua capacidade de liderança.

E frustrações fazem parte. O primeiro emprego pode ser mal pago e o chefe pouco amistoso. O retorno do investimento no negócio próprio não chega antes de dois anos de muita ralação, dívida no banco, noites em claro. O estágio no melhor escritório da cidade exige leituras durante o final de semana.

É assim que a vida começa, é assim que as definições acontecem, é assim, sem muito charme, mas com vontade, talento e suor, que aos poucos se vai descobrindo não somente uma nova e importante função no mundo material, mas um novo sentido para nossa passagem por aqui.