Sobre o Amor – Relacionamentos Amorosos na Era de Aquário

Postado em 26 de outubro de 2015 por Andreia Modesto

Quando me perguntam por que é que eu resolvi lançar um site de relacionamentos, eu tenho duas respostas.

A primeira é que fiquei positivamente impressionada com a história da senhora que sentou ao meu lado num voo entre Porto e Lisboa. E que estava casando, aos 69 anos de idade, com um senhor viúvo do Porto mais velho do que ela. Ambos haviam se conhecido através de um site de jogos de dominó via internet. Contei essa história em uma postagem anterior. Fiquei dias pensando no poder do “acaso” e no poder da Internet, que juntou duas pessoas que em outros tempos jamais teriam chance de se conhecer.

A segunda é que a grande maioria dos meus clientes usa aplicativos e sites de relacionamentos, tendo na maior parte das vezes, boas experiências. Todos já sabem como se precaver com “contatos virtuais” que estão mentindo desde a primeira palavra, ou que já colocam no primeiro chat que não estão querendo nada muito a sério.

O resultado é positivo, pois num tempo “de tempo escasso para sair” e todo mundo passando horas na frente do computador, os sites e aplicativos se tornaram bons instrumentos para descobrir pessoas novas. É preciso peneirar cuidadosamente, mas conheço pessoas que se frustraram com parceiros que conheciam desde a infância ou que foram apresentadas pelos melhores amigos. Por isso, é mais do que passada a hora de perder o preconceito contra a Internet.

Nos últimos 60 anos o mundo virou de pernas para o ar. E a revolução nos relacionamentos ainda deixa muitas pessoas perplexas, confusas, perdidas, diante de uma liberdade que foi ganha com uma rapidez muito grande. Mas que está longe de parecer trazer felicidade. Casamentos eram acordos financeiros entre famílias. Muitas vezes os noivos se conheciam no dia do casamento e não havia como dar errado. Pois era assim que era. E frequentemente o marido tinha seus casos ou alguma amante fixa, pois o casamento lhe servia apenas para garantir que seus bens seriam herdados por aqueles que levavam seu sangue nas veias.

Já no ideal do “casamento por amor” , as uniões aconteciam precocemente. Muito cedo homens e mulheres se juntavam, as moças saíam do “poder do pai” para o “poder do marido” e aquelas que eram realmente “moças para casar”, eram reprimidas, recatas e submissas, fadadas a uma realização unicamente como mãe e esposa. E ser feliz ou infeliz no casamento, era pura sorte, já que a escolha era feita cedo demais, sem maturidade sexual, como hoje ainda se escolhe carreira numa idade em que a maioria dos jovens não tem a menor ideia de quais sejam suas metas de vida.

No século XXI podemos ter uma vida sexual livre, podemos ter vários parceiros sexuais antes do casamento, podemos casar sabendo que é provável que seja apenas o primeiro de uma lista de dois, três ou quatro, podemos questionar, podemos viver crises, pedir um tempo, e mesmo assim, ou exatamente por isto, as angústias e insatisfações continuam.

Poder se unir de vontade própria com aquele que escolhemos, é um privilégio. Mas toda a escolha pressupõe responsabilidade. E contraditoriamente, numa era de tanta solidão e individualismo, o fato de “se ter alguém ao lado” parece que virou um “valor de consumo”. Acredito que isso se deva ao fato de que em 2015 ainda estamos numa fase de transição onde muitos modelos se alternam, divididos apenas por algumas quadras ou bairros.

No mesmo dia em que recebo uma jovem que tem problemas com a sogra e a família do marido porque acham que ela trabalha demais e que deveria se aprimorar na cozinha e na limpeza da casa, também recebo outra que gostaria de parar de trabalhar para se dedicar aos filhos, mas o marido já avisou que não gosta de mulheres dependentes e que quer continuar a dividir todas as contas.

Recebo jovens de 35 anos que já estão no terceiro relacionamento debaixo do mesmo teto, embora não tenham casado no papel, e tiveram filhos das duas relações anteriores. E outra de 31 anos, casada com o namorado que conheceu aos 14 anos, é pressionada pela mãe e pela avó para ter o primeiro filho, ao mesmo tempo em que ajuda o marido a pagar a casa própria, estuda inglês e faz cursos de extensão depois do horário de trabalho.

Aqui e ali pequenas tentações, pequenas traições, não necessariamente encontros sexuais com outras pessoas, mas traições pelo desleixo, pela negligência, pelo esquecimento, pela falta de paciência, pelo individualismo que é tão forte em nosso tempo, que passa a ser difícil de identifica-lo, pois é o modo como a grande massa atua. O tempo do “eu quero, posso, mereço, devo e vou ser feliz”. Pessoas que saem de um casamento não porque eram infelizes dentro dele, mas que acreditam que possam ser ainda muito mais felizes em outra estrutura e com outra pessoa, já que existe uma diversidade de opções. Se as pessoas se amarravam em casamentos longos e tristes, hoje jogam tudo para o alto numa rapidez assustadora e vinte anos de vida em comum vão pela janela, sem muito pensar.

Enquanto elas se queixam que eles continuam prestando mais atenção ao futebol e às informações sobre a Bolsa de Valores, eles começam a se assustar porque ela pede o divórcio de repente ou por que jamais estão satisfeitas com o que ele consegue proporcionar. O “ideal” do amor romântico coloca no parceiro afetivo um nível de expectativa impossível de ser obtido através de uma única pessoa. Se é um avanço podermos escolher com quem queremos viver intimamente por um bom tempo de vida à frente, por outro lado, parece faltar bom senso em todas as expectativas que temos sobre o outro. Queremos que ele nos dê segurança, proteção, apoio, que nos dê o seu nome, sua confiança, que seja um porto-seguro. Mas que nos dê também bastante aventura, descobertas, estímulos, excitação e novidades.


É impossível receber tudo isso de uma única pessoa, ou pelo menos, é impossível receber tudo isso de uma única pessoa num único momento. O casal que se estruturou com base na total confiança e proteção mútua, pode rapidamente ver o desejo sexual diminuir diante de tantos almoços com a família e tantas contas a pagar pelo apartamento novo e o terreno onde construirão um dia a casa da praia. O casal que tem uma vida sexual intensa há anos, vivencia rupturas por que ela não suporta a ideia de se casarem, mas continuarem a morar em casas separadas, argumento que ele defende com base em dois casamentos anteriores.

Embora seja possível escolher o parceiro afetivo com base no amor, desejo, atração e carinho, o modo de pensar muitas vezes ainda não acompanhou tanta novidade. E as relações se estabelecem de modo muito parecido com o casamento dos bisavós, controle e inseguranças similares. Pode existir algo pior do que comparar o estilo das diferentes famílias de origem? Ou passar uma tarde inteira se queixando que o cunhado é arrogante no novo carro zero blindado? Ou ser obrigado a viajar todo domingo para almoçar na serra com os sogros, quando se adora o mar?

Muitos casais não conseguem criar um núcleo próprio e continuam casados com os pais. Até saíram da casa dos pais fisicamente, mas continuam embolados emocionalmente ou financeiramente. Um casal que atendi acabou se separando pela interferência da família dele. Ele era farmacêutico bem sucedido e satisfeito com sua pequena farmácia de manipulação. O pai exigiu que depois de 10 anos realizado na carreira, ele jogasse tudo para o alto para tentar salvar a empresa da família, num ramo completamente desconhecido para ele. Não salvou a empresa do pai e ainda perdeu o seu ganha-pão e a admiração e amor da esposa. A queixa da esposa é que ele tomou a decisão junto com o pai e não junto com ela.

Um casal precisa se admirar, se gostar sem que um ofusque a luz do outro. Se existir submissão, existe controle, mas não existe amor. Não é possível amar alguém sem permitir que ele seja exatamente do jeito como é. Inteiramente ele. E se existe algo que incomoda ou pode prejudicar o relacionamento, isso é conversado e é algo que pode ser transformado, se o intuito for continuar junto. Em alguns casos será questão de aceitar a crítica e se propor a mudar para melhor. Em outros casos será questão de defender o seu modo de ser e não ceder.

Vi casamentos felizes, verdadeiros, duradouros, não necessariamente fáceis. Projetos financeiros, estreita relação com as famílias de origem, filho no carrinho e na barriga, mas também uma atenção extrema para que nunca se esquecessem de cuidar do desejo. Aquele que faz ter saudades, que faz imaginá-lo chegando num encontro, aquele que faz comprar um perfume e passar horas se enfeitando para o outro, aquele que não permite que a tal chama se apague. Alguns mistérios, alguns véus, alguma proteção para que nenhum vento apague o calor que existe entre os dois.

Viver a dois é um exercício, uma arte, um desafio, uma lição. O outro deveria ter o papel de extrair de nós o melhor e vice-versa. É comum vermos casais em restaurantes caros, que não se olham nos olhos e pouco falam. Assim como é comum ver casais no supermercado brigando por bobagens, irritados ou ríspidos um para com o outro.

Se vivemos uma era de pressa em que pouco tempo temos para prestar atenção a nós mesmos, imagine para prestar atenção ao outro! Então, com toda a liberdade de podermos escolher um parceiro, continuamos sofrendo. Não pelos mesmos motivos que nossas avós, mas por outras razões.

Afinal, se escolhemos casar mais cedo e ter filhos jovens, atrofiamos a carreira. Se priorizamos a carreira, as viagens e os amigos, corremos o risco de não podermos mais ter filhos. E talvez venhamos a nos casar mais tarde com alguém que já traz na bagagem dois casamentos e filhos. Enfim…

Voltando ao propósito do site de relacionamento, creio que ele tem uma vantagem: dá a chance de se apresentar para o possível parceiro afetivo, falar dos interesses e gostos, manias e hábitos, de forma a encontrar uma união harmoniosa. É só uma ferramenta e não vai resolver os problemas que podem surgir a partir de um encontro feliz.

Não gosto muito da ideia de se descartar alguém unicamente pela foto. Até porque fotos podem enganar. O ideal é tentar conhecer mais um pouco daquela outra pessoa. A tal “primeira impressão” é bastante traiçoeira e o bonitão pode ser um chato, pouco papo, vaidoso e infantil. O feioso pode ser viajado, culto, educado e depois de vinte minutos você olha para o patinho feio e só vê o cisne. Mas é preciso se empenhar para que a história tenha mesmo um final feliz.

– inspirado também por palestras de Esther Perel