Vênus, encontros e casamento

Postado em 28 de setembro de 2015 por Andreia Modesto

Maio de 2010, num voo entre Porto e Lisboa, ela sentou ao meu lado, bateu com a mão na minha perna e com aquela precoce intimidade que só o Brasil é capaz de demonstrar, me perguntou com sotaque aberto do nordeste brasileiro: – A menina é brasileira, não é? Está passeando?
Não me disse o seu nome e nem perguntou qual era o meu.

Na voz entusiasmada dos adolescentes, começou a me contar sua história de amor. Enfermeira aposentada de um dos hospitais onde trabalhou a vida inteira, começou a alugar o neto de 15 anos para jogar dominó, paixão de infância. O garoto, pouco entusiasmado para dar tanto tempo para a avó, ensinou-a a mexer no computador e mostrou a ela um site brasileiro de dominó, onde ela começou a se divertir nas horas de folga.

Um outro jogador tinha um email muito parecido com o seu: oliveira08 e foram descobrir outras muitas coisas em comum. Ela, 69 anos, do Recife, viúva de marido que já era separado, dois filhos, dois netos, muita luta e dificuldades na vida. Ele, 79 anos, do Porto, viúvo, aposentado, a companhia de um filho temporão, perdendo aos poucos a visão do olho esquerdo. Mares do Recife, ondas da Foz, passeio na Ribeira, a primeira vez que ela saiu do Brasil, um medo danado, mas foi.

Depois de dois anos, estavam casando. Esperar o quê? Ainda não tinham decidido se morariam no Porto ou em Recife, tão diferentes cidades e tão parecidas, nos mares, nos ventos e na solidão até o momento em que se acharam nessa máquina maluca chamada computador. Ela mostrou o anel de noivado delicado no dedo de muito trabalho. E comentou que na despedida ele havia chorado. Mas era preciso que ela voltasse para arrumar alguns papéis e resolver de vez a aposentadoria do segundo hospital, de onde ela havia tirado uma licença de 90 dias para ficar com o namorado na Europa.

O avião pousou e não me preocupei em saber o nome dela. O que ela me disse bastava: – Marcamos o casamento para 29 de setembro, dia do meu aniversário. Ele faz aniversário na semana seguinte, muita festança, não é?